NA LONGA E NEGRA NOITE, POR ENTRE O SABOR DAS TREVAS †

sábado, 31 de julho de 2010

104 - A cruz na estrada



A cruz ali fincada,
A dor ali chorada,
Pedaço de alguém.
Espinhos do além.

Nasceu.
Surgiu.
Viveu.
Partiu.

Símbolo de um Ser.
Marca de um sofrer.
Barco que não atracou.
Vida que não vingou.
Destino que interrompeu
A vida de um ser
Que quis e não
Viveu.


A. F. J.


Imagem: Kleber Athos

quarta-feira, 21 de julho de 2010

103 - Ver - Te ( As doze árduas horas )


Por que preciso ver-te com limitações?
Quero-te por completo.
Que mundo é esse que estás vivendo hoje?
Dê-me o endereço, preciso visitá-la
Para perguntar como se faz o molho...

Você nem disse que ia partir, por que fostes assim?
Nem reparei na mesa, nem percebi o sabor do manjar...
Entrei há pouco no meu quarto... Não senti seu perfume lá
Não creio que minha realidade esteja desperta,
Acho que ela ainda dorme... Por Deus, destrua os relógios!

Não se esqueça que me prometestes que seria eu
A aguardar-te... Por que fizestes o contrário?
Agora não tenho como seguir... Então, só o que preciso
É o que não posso: tê-la de volta
Minha Mãe...


A. F. J.



Imagem: Kleber Athos

domingo, 27 de junho de 2010

102 - Orgulho



[Do frâncico * urgEli , 'excelência', pelo cat. orgull e poss., pelo esp. orgullo.] S. m. 1. Sentimento de dignidade pessoal; brio, altivez. 2. Conceito elevado ou exagerado de si próprio; amor-próprio demasiado; soberba. - (escrito em 28/09/02)

Sim, era um milagre. Além do entardecer, três amigos de infância se reencontraram. A última vez que se viram foi no fim da adolescência, e agora, mais de dez anos depois. Resolveram entrar em algum bar para beber, quando apareceram as diferenças que chegam com a idade: um era satanista, o outro era padre agora, e o terceiro... bem, o terceiro tinha uma visão particular do mundo.

Marco ainda usava a camiseta desbotada do King Diamond, onde se lia "Satan´s Fall", o que desagradava Solomon, que se sentou do outro lado da mesa. Ao meio sentou-se o terceiro. Parecia Jesus Cristo, com os longos cabelos desgrenhados e a barba há muito sem fazer.

-Então, você ainda continua na "Highway to Hell", Marco?

-Sim, e quem não está, padreco? - respondeu Marco, com a costumeira cara de poucos amigos - Basta estarmos vivos nesse mundo, para sentirmos o inferno...

Solomon gostava de seus amigos. Bons tempos, antes das diferentes filosofias os separarem. O terceiro era o único que não tinha escolhido nenhum caminho. Dizia-se agnóstico, mas o padre achava aquilo uma desculpa covarde para não assumir uma religião.

-Lembram-se de quando começamos a ouvir metal juntos? - recomeçou Marco, trazendo as lembranças à luz da mesinha do bar.

-Claro. Iron Maiden sempre é a primeira banda de todo mundo. Foi com "The number of the beast", não? - continuou Solomon, pareceu meio incomodado com a recordação.

-666! - gritou Marco, rindo.

O terceiro estava quieto, bebendo sua cerveja. De repente soltou:

-Lembram-se quando me envolvi com aquela gostosinha da igreja, e logo depois todos vocês namoravam moçoilas católicas como ela também?

Riram juntos, mas o padre depois continuou:

-A minha moçoila sem saber despertou minha vocação religiosa.

-Que mais ela te despertava, Solomon? Confessa! - gargalhou Marco. - Eu só pensava em transar com a minha, e como ela recusava, isso me dava mais vontade ainda!

-E você acabou comendo ou não, Marco? - perguntou o do meio.

-Pior que não! Hahahahaha! Mas foram horas de bolinações que me lembro até hoje!

-Pelo jeito só eu absorvi o que as ditas "moçoilas católicas" tinham a compartilhar, né? Ela me contou certa vez a lenda dos sete pecados capitais, querem ouvir? - perguntou Solomon.

-Eu gosto de lendas. Conte. Aliás, por que chamamos de "pecados capitais"?

-O Sr. Agnóstico não sabe? - ironizou Marco. - Até eu sei! Chamamos os pecados capitais dessa forma por originarem outros pecados. E no século IV, são Gregório Magno e são João Cassiano definiram que são sete: orgulho, ganância, inveja, ira, luxúria, gula e preguiça. Correto padreco?

Solomon acenou afirmando, até meio surpreso com a precisão secular da resposta. Então começou a contar sua versão da lenda:

"Certo dia um homem chegou do trabalho, e encontrou sete pessoas dentro de sua casa. Ficou assustado, quando um homem muito musculoso disse:

-Não tema, somos tão velhos quanto o mundo, e estamos em todos os lugares. Eu sou a PREGUIÇA, e estou aqui com meus colegas para que você escolha um de nós para sair definitivamente de sua vida...

-Mas como você é a preguiça? Tem corpo de quem malha diariamente!

-Sou forte como um touro, sim. E peso nos ombros dos fracos que sucumbem à esse pecado.

E então uma velha horripilante, encurvada e de aspecto enrugado, lhe diz:

-E eu sou a LUXÚRIA. Sou capaz de trazer doenças e morte, perverter crianças e destruir a sagrada família. - e antes que o homem argumentasse que ela era feia, se transformou numa bela mulher, dizendo: "Não há feiúra para a luxúria".

E um mendigo fedido que estava no canto da sala diz:

-Eu sou a GANÂNCIA. Muitos matam e abandonam famílias por mim. Tenho essa aparência pois não importa o quanto rico eu seja, sempre vou cobiçar e querer mais e mais.

-E quem seria você? - o dono da casa perguntou à uma mulher, linda, exuberante, que estava sentada no sofá, um corpo escultural.

-Eu sou a GULA. Ao contrário do que muitos pensam, não sou gorda e feia, pois assim seria fácil resistir à esse pecado. Quem tem a mim nem percebe. - ela respondeu.

Um velho estava sentado na poltrona, aspecto calmo, e disse, com voz serena:

-Eu sou a IRA, ou cólera, ou raiva. Tenho muitos nomes, e sou o mais comum entre as pessoas. Posso ser o avô da humanidade, que por mim matam com crueldade e destroem cidades e civilizações. Mesmo quando não apareço, posso estar guardado dentro de você, lhe causando úlceras, câncer e outras doenças.

Nisso apareceu uma princesa, a ostentação em pessoa. Vestia roupas finas, e usava uma coroa, braceletes e anéis de puro ouro.

-E eu sou a INVEJA. Não tenho ainda tudo o que desejo. Existo entre os ricos e os pobres igualmente. A inveja surge pelo que não se tem, e pelo que é dos outros. Nesse aspecto sou parecida com a cobiça... E sou uma das madrinhas da tristeza.

Ela foi interrompida por um lindo menino, sorridente e brincalhão, que perguntou ao morador:

-Quer brincar comigo? Eu sou o ORGULHO. Não se engane, não sou puro e inocente como pareço, sou tão destrutível quanto os outros pecados.

E então, vendo que precisaria mesmo escolher entre um dos sete, o morador pediu tempo para pensar... Quando voltou, tinha escolhido o ORGULHO para sair de sua vida. A criança olhou raivosamente para ele, e foi embora. Para a surpresa do homem, todos os outros também saíram junto com o menino.

-Esperem! Eu... acertei?

O menino então se voltou, e respondeu, com uma voz que não era de criança:

-Sim, fez a escolha certa. Tirou o orgulho de sua vida, e onde não há Orgulho não há preguiça, pois os preguiçosos são aqueles que se orgulham de nada fazer para viver não percebendo que na verdade vegetam. Também não há Luxúria, pois os luxuriosos têm orgulho de seus corpos e julgam-se merecedores, assim como não há Cobiça, pois os cobiçosos têm orgulho das migalhas que possuem, juntando tesouros na terra e invejando a felicidade alheia, não percebendo que na verdade são instrumentos do dinheiro.

O morador olhava atônito, e o menino continuou:

-Onde não há orgulho, não há Gula, pois os gulosos se orgulham de sua condição e jamais admitem que o são, arrumam desculpas para justificar a gula, não percebendo que na verdade são marionetes dos desejos. Também não há Ira, pois os irados têm facilidade com aqueles que, segundo o próprio julgamento, não são perfeitos, não percebendo que na verdade sua ira é resultado de suas próprias imperfeições. E por fim, não há inveja, pois os invejosos sentem o orgulho ferido ao verem o sucesso alheio seja ele qual for, precisam constantemente superar os demais nas conquistas, não percebendo que na verdade são ferramentas da insegurança.

Então saíram todos sem olhar para trás."

-Hahahahaha! Aquele "esperem, eu acertei", foi você quem colocou na lenda, né Solomon? - sorriu o do meio e o padre concordou, perguntando:

-Oras, você nunca ouviu falar de licença poética?

-Eu escolheria sim o menino, sabe? Mas não por sabedoria, apenas por um motivo louco que só minha mente saberia explicar, mas no fim... Eu escolheria o menino!

-Querem minha opinião? - disse Marco, e antes de qualquer resposta, soltou:

-O que são os tais pecados capitais, além de atos que fazemos para garantir nossa satisfação física e mental? Desculpem, mas, todos eles são manifestações de instintos. E o homem É UM ANIMAL INSTINTIVO, certo padre?

Solomon tossiu, e engasgou com a água que bebia. O terceiro apenas ficou quieto, e seus olhos brilharam com a curiosidade típica de geminiano. "Continue Marco."

-Ganância, gula e preguiça são a manifestação do instinto mais básico, a autopreservação. E luxúria? Seria também um instinto, a procriação. E para que a gula e a preguiça não acabem esteticamente conosco, o orgulho e a vaidade dão uma consertada nas coisas, percebem?

Após essa declaração de Marco, os três caíram num silêncio profundo... Sim senhor, aquela seria uma noite e tanto!


Lewd
Sistinas


Publicado sob autorização do autor também em Alfarrábio, Gama e Omega



Imagem: G.Brandão

quarta-feira, 23 de junho de 2010

101 - Femmes Damneés



À tíbia das lamparinas voluptuosas,
Sobre sensuais coxins impregnados de essência,
Sonhava Hipólita as carícias poderosas
Que lhe erguiam o véu da púbere inocência.

Ela buscava, o olhar na tempestade posto,
De sua ingenuidade o céu distante agora,
Como um viajante para trás volve o seu rosto
Em busca da manhã que já se foi embora.

Os olhos já sem viço, o preguiçoso pranto,
O ar exausto, o estupor, lúbrica moleza.
Os barcos sem ação, como armas vãs a um canto,
Tudo afinal lhe ungia a tímida beleza.

Posta a seus pés, serena e cheia de alegria,
Delfina lhe lançava à carne olhos ardentes,
Como o animal feroz que a vítima vigia,
Após havê-la antes marcado com seus dentes.

Bela e viril de joelhos ante a frágil bela,
Soberba, ela sorvia com volúpia intensa
O vinho da vitória e, acercando-se dela,
Punha-se à espera de uma doce recompensa.

No pasmo olhar da presa ela buscava aflita
Ouvir o canto que o prazer sem voz entoa,
E essa sublime gratidão que arde infinita
E, qual suspiro, sob as pálpebras escoa.

- "Hipólita, amor meu, que me dizes então?
Compreendes quão pueril é oferecer agora
Em holocausto as tuas rosas em botão
A um sopro que as pudesse espedaçar lá fora?

Meus beijos são sutis como asas erradias
Que afagam pela tarde os lagos transparentes,
Mas os de teu amante hão de escavar estrias
Como as carroças e os arados inclemente;

Sobre ti passarão qual sobre alguém pisasse
Uma junta de bois os cascos sem piedade...
Hipólita, meu bem! Volve pois tua face,
Tu, coração, que és o meu todo e és a metade,

Volve teus olhos cheios de astros como os céus!
Dá-me esse olhar que é como um bálsamo bem-vindo;
Do prazer mais sombrio eu erguerei os véus
E hei de fazer-te adormecer num sonho infindo!"

Mas Hipólita então a fronte levantando:
- "Não sou ingrata e do que fiz não me arrependo,
Minha Delfina, eu sofro e à dor vou definhando,
Como após um festim crepuscular e horrendo.

Sinto pesarem em mim graves terrores
E negros batalhões de fantasmas dispersos,
Que querem conduzir-me a fluidos corredores
Num sangüíneo horizonte em toda parte imersos.

Teremos cometido algum pecado extremo?
Explica, se é capaz, o medo que me acua:
Se me dizes: Meu anjo! Eu de alto a baixo tremo
E sinto minha boca ir em busca da tua.

Não me olhes mais assim, ó tu, meu pensamento!
Tu que eu adoro e que és enfim minha eleição,
Mesmo que fosses um fantoche fraudulento
E a própria origem dessa estranha perdição!"
 Delfina, a sacudir nervosa a crina ondeante,
E como a tripudiar sobre um tripé supremo,
O olhar fatal, gritou, despótica e arrogante:
- "E quem diante do amor ousa falar do inferno?

Maldito para sempre o sonhador inútil
Que por primeiro quis, em sua insanidade,
Enfrentando um problema insolúvel e fútil,
Às delicias do amor juntar a honestidade!

O que deseja unir, em místico projeto,
O dia com a noite, o frio com a flama,
Jamais aquecerá seu trôpego esqueleto
Àquele rubro sol que amor também se chama!

Vai, se queres, de um noivo estúpido à procura;
Abre teu peito em flor a seus beijos em fúria;
E como quem o horror ao remorso mistura,
No seio hás de exibir-me o estigma da luxúria...

Aqui somente a um mestre é licito servir-se!"
Mas Hipólita, em meio a uma enorme aflição,
De súbito gritou: - "Sinto em meu ser abrir-se
Um abismo, e este abismo é enfim meu coração!

Ardente qual vulcão, mais fundo que a tormenta,
Nada este monstro aplacará dentro de mim
E nunca há de saciar Eumênide sedenta
Que o queimará, archote em punho, até o fim.

Que os véus de nossa alcova ocultem-nos do mundo,
E que o cansaço dê repouso a tais agruras!
Quero extinguir-me no teu vórtice profundo
E no teu seio achar a paz das sepulturas!"

- Descei, descei, ó tristes vítimas sublimes,
Descei por onde o fogo arde em clarões eternos!
Mergulhai neste abismo em que todos os crimes,
Tangidos por um vento oriundo dos infernos,

Fervilham de mistura aos ásperos trovões.
Sombras dementes, ide ao fim de vosso vício;
Não poderei o ódio expulsar dos corações,
E é do prazer que há de surgir vosso suplício.

Jamais um raio há de clarear vossas cavernas;
Pelas fendas da pedra os miasmas delirantes
Infiltram-se a brilhar, assim como lanternas,
E os corpos vos penetram de odores nauseantes.

O acre prazer que vos alegra a erma existência
A sede vos aumenta e a vossa pela engelha;
E ao vento furibundo da concupiscência
Vossa carne se esgarça qual bandeira velha.

Longe dos vivos, erradias, condenadas,
Correi rumo ao deserto e ali uivai a sós;
Cumpri vosso destino, almas desordenadas,
E fugi o infinito que trazei em vós!




quinta-feira, 17 de junho de 2010

100 - OIhos


Observas as passagens alheias;
Idas e vindas...
Alegrias, tristezas, encontros e desprazeres.


Rogas teu veredicto:
Lançando ao vento o veneno das tuas palavras.

Olhos fugazes
Tornando-se cegos,
Aos teus próprios assuntos.
Pobre sombra de tua miníma vida;
Vida de uma janela,
Vida de espectador...

Ganhe-te o pesar
Porque quando esse olhos,
Voltarem-se para si próprio...



Lu Moon Shadow
Moon Poetics



Imagem: G.Brandão

domingo, 13 de junho de 2010

99 - Jardim Secreto


"Amar sempre dá certo mesmo sabendo que

no coração amado exista um jardim

secreto: o grande mistério

do ser só!"


Vivian Maguinter

In Foco



Imagem: Ismar Z.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

98 - Ave Maria

Ave Maria de Gounod. Em belíssima e moderna versão, de uma banda que muito aprecio: E Nomine.




As ilustrações que se vêem na apresentação da música são da artista Victoria Frances.



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