"... e por dormir demais naquele pôr-de-sol, o sono da noite não veio. Pôs-se de pé, caminhou pelo escuro, e se levou até a janela. Ele era dois. Um que respirava e outro que o interrogava. Abriu as bandas da janela como um livro. Tentou soletrar o que andava escrito no escuro. Debruçado, experimentou uma profunda intimidade com as trevas. Nada. Parecia que a terra havia partido e deixado apenas a solidão como vitória. Sentia secular saudade do mundo, como se há muito o houvera deixado. No escuro só o imaginário lê. Releu o que estava escrito em si mesmo. Deparou novamente com a mesma sentença aflitiva. Sentiu que a vida o enganara. Ao ganhar o nascimento, nasceu com ele uma condenação definitiva. A vida também lhe traíra sem espinhos, lastimou já sem lágrimas."
Bartolomeu Campos de Queirós
Imagem: G.Brandão
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"O Livro dos Sentimentos" - crônicas, contos e poemas para jogar com as emoções
págs. 102/103
Medo - Traíra sem espinhos
Bartolomeu Campos de Queirós
seleção e organização de Maria Isabel Borja e Márcio Vassallo
Editora Guarda-Chuva - 2006
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