NA LONGA E NEGRA NOITE, POR ENTRE O SABOR DAS TREVAS †

segunda-feira, 23 de maio de 2011

129 - Poética


I

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.


II

Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.

E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.

Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo:
(Um templo sem Deus.)

Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
- Entrai, irmãos meus!


Vinicius de Moraes

Imagem: G.Brandão

2 comentários:

Anjo das Trevas disse...

Não convido ninguém. A vida, assim como a morte é minha. Só minha.

*lua* disse...

Meu amigo querido,

Gosto muito de pensar que viver é um eterno morrer e renascer ... Talvez esperamos algumas vezes por um momento mais sublime e familiar nesse ciclo ...
Porém para morrermos devemos antes ter sabido ao menos um pouco vivermos ... a arte mais difícil existente!!!

Beijo no seu coração

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